Não deixa de ser uma coincidência interessante que eu esteja retomando o blog com o mesmo tema do post que encerrou o último ciclo de postagens. Denota que é um tema que me chama atenção e que parece continuar relevante. Segue, abaixo, o novo texto.
Por que alguém protesta? Os motivos podem ser diversos, mas a prática de protesto indica uma distância entre meios e fins. Afinal, protesto é um meio indireto de se conseguir alguma coisa. Protesta-se contra uma situação de modo a alterar essa realidade, seja em termos de adoção de medidas ou de abandono delas. Em geral, no entanto, o protesto é reativo, ou seja, segue-se a uma mudança de curso considerada indesejada. A falta de uma medida dificilmente motiva um protesto, a não ser que aquela medida seja esperada. Ou seja, protesta-se contra novas medidas, (que podem ser em termos de abandono ou adoção de novas práticas) ou pela ausência de medidas esperadas.
O protesto é motivado, portanto, pela insatisfação com uma situação nova ou inesperada. Mas por que alguém adere a um protesto? O primeiro passo para entender a adesão a um protesto é compreender que nenhum protesto é espontâneo. Um grupo de pessoas, ainda que mínimo, precisa organizar o que será feito. Essas pessoas possuem uma insatisfação particular que as motiva a protestar. Poderiam optar por outra rota (escrever um livro, mandar um email para a prefeitura, gravar depoimento no youtube, etc.) mas escolheram organizar uma marcha em torno de uma questão. Todo protesto é, portanto, planejado. Um protesto planejado, no entanto, pode ter uma subsequente adesão espontânea, quando pessoas alheias a organização do mesmo ou do meio social que o organizou passam a aderir a estes protestos. Quando se qualifica um protesto de espontâneo, portanto, ao invés de organizado ou 'orquestrado', essa é uma oposição enganosa. Todo protesto é sempre organizado e planejado. A subsequente adesão, se ocorrer, é que pode ser espontânea, ou seja, fruto de uma decisão de pessoas alheias à organização do protesto, ou 'orquestrada', quando aqueles que organizaram o protesto criam meios para que o protesto ocorra.
Por exemplo, se alguém oferece um lanche para pessoas carregarem cartazes do ponto A para o ponto B, esse é um exemplo de protesto orquestrado. Se, no entanto, as pessoas alheias ao protesto passam a compô-lo enquanto os organizadores vão do ponto A para o ponto B e, em outros dias, cheguem até mesmo a confeccionar seus próprios cartazes, a adesão é espontânea. Em quais condições acontecerá adesão espontânea? Dependerá de quanto aquele protesto específico reverbera com o restante da sociedade. Mas não somente isso: dependerá também da eficácia de meios alternativos para se alcançar aquilo que se mira. Em regimes democráticos, com plena liberdade de imprensa e organização partidária, o protesto é visto como um recurso menor. Em regimes de viés mais autoritário, por outro lado, o protesto é uma válvula de escape para se fazer ouvir e mostrar a força daquela demanda reprimida.
Talvez esteja aqui o ponto mais relevante que frustra os manifestantes mas que explica boa parte da sua pouca eficácia: em democracias que 'funcionam', o protesto não é uma via alternativa, mas no máximo uma sinalização de uma demanda reprimida que passará a ser atendida ou constar no programa dos partidos constituídos. Isso não significa que o protesto sempre se configure numa agremiação ou que se identifique necessariamente com uma legenda. Mas parece natural que as lideranças de um protesto passem a integrar o processo político, se assim o desejarem, ou que lideranças políticas consolidadas passem a dar atenção a essas bandeiras. Uma visão idealizada da política apontaria para a primeira, ao passo que uma visão mais cínica da política elegeria a segunda como mais provável. Qualquer que seja a via, em democracias funcionais demandas reprimidas, se demonstrarem fôlego político, passam a integrar a pauta de discussão nacional.
Muitos dos manifestantes se sentem frustrados com o jogo político tradicional, e invejam a capacidade de protestar dos povos de países mais autoritários. A ironia é que justamente aqueles com mais liberdade para protestar são justamente os que menos precisam desse tipo de recurso. É mais fácil que pessoas de regimes autoritários se reúnam em torno de protestos como única via de (1) conseguir instituições mais democráticas ou (2) chamar atenção contra a repressão de um grupo específico. A dificuldade dos protestos em países autoritários, aliás, é justamente essa: como transferir demandas de grupos específicos em apoio a instituições democráticas? Não é à toa que regimes autoritários negociem, de tempos em tempos, benefícios para demandas específicas, como forma de se perpetuarem no poder. Grupos fragmentados encontram dificuldade em traduzir suas demandas numa bandeira em comum em torno de uma democracia cujos resultados lhe são desconhecidos. Regimes autoritários, no entanto, nem sempre cedem a protestos: colocam na balança o custo político da repressão versus o custo de ceder recursos e poder para atender demandas, ou seja, enfrentam o trade-off entre legitimidade (probabilidade de manter o poder) e 'lucratividade' (benefício de manter o poder).
Um governo democrático, por seu turno, também pensa em termos de legitimidade, mas no sentido de conseguir apoio para as próximas eleições. A sua 'lucratividade' é decorrente daquilo que as instituições permitem obter e quanto os grupos privados estão dispostos a pagar para participar. Atender a uma demanda reprimida manifesta em protestos pode ser mais ou menos custoso em termos de votos, ou em termos de recursos que 'compram' votos ou outros benefícios. Grupos organizados que questionam a legitimidade do governo buscam o confronto com as forças policiais, pois sabem que um potencial confronto violento diminui a legitimidade do governo e o força a atender as demandas dos manifestantes. É uma tática de quem protesta provocar até que a polícia cometa um erro. Uma polícia pouco acostumada a reprimir protestos e envolvida em rotineiros casos de abuso, como na realidade brasileira, tenderá realmente a cometer excessos. Diante desse quadro conflituoso, no entanto, pode-se dizer que a 'violência' e 'brutalidade' policial foi mínima. O barril de pólvora poderia ter gerado uma explosão muito maior.
Por último, mas não menos importante, compreender o protesto como sendo um protesto do 'povo', essa entidade imaginária que ora abarca toda a população, ora apenas a maioria dela ou mesmo apenas um segmento 'representativo' (seja em termos de raça, religião, nível de renda, etc.), é um erro grave. O protesto representa aqueles que protestam. Pode existir um apoio mais ou menos disseminado aos protestos, mas que é difícil de mensurar, até pelo fato de que aqueles que estão descontentes com alguma coisa tendem a se manifestar muito mais do que aqueles que se encontram satisfeitos ou conformados com uma questão. Os manifestantes não representam o povo brasileiro, apenas fazem parte dele; a sua origem racial, educação ou econômica também não o fazem mais ou menos representativos do povo, a menos que alguém (quem?) tenha definido uma essência ao povo brasileiro. O povo brasileiro possui uma história, e o país possui uma narrativa dessa história; mas isso não implica que experiências novas que fujam da história ou da narrativa não componham também experiências do povo. O máximo que se pode dizer é que tal demanda dos manifestantes possui potencial ou não de conseguir o apoio da maioria, mas nem mesmo essa maioria se constitui com uma essência, visto que, dependendo da questão, uma pessoa pode ou não ser inclusa na maioria.
Em algumas questões, é claro, a maioria parece ter alguns traços em comum, até pelo seu amplo componente na formação do povo brasileiro, o que aumenta a probabilidade daquele traço estar presente na maioria: a maioria do povo é 'pobre', 'pardo', 'cristão' e 'analfabeto' (como alguns qualificam quem não tem ensino superior). Mas isso não obriga que qualquer maioria que se forme de uma questão tenha que ser composta necessariamente, em sua maioria, de pessoas com essas características, mas sim que a maioria sempre terá alguma pessoa com essas características. Uma questão estatística: se uma característica atinge mais de 50% de uma população, qualquer subgrupo dessa população que seja composto por mais de 50% terá, necessariamente, uma pessoa com aquela característica.
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